sábado, 30 de maio de 2015

Teu corpo...



"Tinha o meu joelho entre as suas pernas amortecidas, e sentia o respirar molhado que se lhe desprendia do corpo; um calor úmido, escorregadio; um cheiro de saliva derramada, de sêmen, suor, água de mel do seu charco íntimo. Havia cabelos colados na almofada, lençóis enrugados, ternura despida, roupa perdida entre corpos que se tinham raptado, rasgado, amado. Eu tinha ainda na pele os trilhos rubros dos seus dedos, das suas unhas, e na boca a luz da pele quando mordida. Fiquei assim uma eternidade, entorpecido, sentindo o seu corpo colado no meu, o seu dormir de mulher moída. A luz da janela subia como um manto pela cama - agora silenciosa, serena como um descampado depois da batalha."João Morgado


João Morgado IN: Diário dos Imperfeitos

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Desejo


"A mão desceu lentamente, escorregando por entre a pele aguada, abrindo o sulco do seu corpo. Fechou os olhos; queria ver o corpo apenas pelos seus dedos. Queria sentir cada poro inebriado da pele. Sentir aquele prazer que nunca sentira ou ousará perseguir dentro de si."
João Morgado IN: Diário dos Imperfeitos

sexta-feira, 1 de maio de 2015

As linhas retas da vida...


" A natureza, no seu supremo saber, não tem águas em linha reta para o mar, não tem folhas quadradas nas árvores. Os paralelos de granito são obra da civilização, pois a montanha não oferece duas rochas iguais e retilíneas.
As linhas retas não podem ser perfeitas porque são arrogantes, não olham para o lado, não se dobram sobre ninguém, não contornam nem o bom nem o mau. As retas só desejam retas iguais. Se queremos caminhar a seu lado, temos que seguir paralelos para onde elas vão, movermo-nos com elas para o mesmo infinito, sem qualquer contato. Se fazemos um pequeno ângulo, perdemos a honra da sua companhia, deixamos de ser dignos de a acompanhar no seu rumo programado, acabamos por colidir ou nos separar."

In: Diário dos Imperfeitos

João Morgado